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O DIA DO PAGAMENTO

12º
Hoje eh o dia de pagamento aqui na fazenda pelos serviços que fazemos aqui na fazenda. Não aqui na fazenda, porque o pagamento eh feito lá na fazenda.
Hoje eh o dia de pagamento aqui na fazenda pelos serviços que fazemos aqui na fazenda. Não aqui na fazenda, porque o pagamento eh feito lá na fazenda. Algumas pessoas trabalham aqui todos os dias e outros só veem de vez em quando trabalhar aqui. Mas a maioria trabalha todos os dias aqui. Mas ninguém recebe dinheiro como pagamento. Eles recebem só um papel, que aqui eles chamam de contra-cheque, onde está escrito o quanto eles tem direito de receber. O dinheiro mesmo fica no banco da cidade e as pessoas que trabalham aqui tem que ir lá buscar, mas só podem fazer isso depois que recebem esse papel.
Eu não recebo esse papel e nem dinheiro, porque eh meu pai que pega esse papel por mim e ele ou meu irmão mais velho de todos que vai na cidade buscar no banco o dinheiro. Eu nunca fiquei com nenhum dinheiro porque meu pai fala que eu não preciso. Diz ele que eu tenho tudo que preciso ali e então não preciso de dinheiro, mas meu irmão mais velho de todos fica com o dinheiro que recebe. Os outros irmão meus também acho que ficam com o dinheiro, mas só um pouco dele, pois minha mãe pega um pouco do dinheiro com eles.
Meus irmãos gastam o dinheiro que recebem lá na cidade. Eu não sei o que eles compram lá, mas pouco tempo depois de receberem esse pagamento eles já ficam dizendo que não tem mais dinheiro. Eles ficam dizendo que dinheiro na mão outra vez ia demorar, mas não demora tanto assim, pois sempre acontece esse dia de pagamento aqui na fazenda. Não aqui na fazenda, mas lá na fazenda. 
Uma vez pedi ao meu irmão mais velho de todos para me levar com ele pra cidade, pra mim conhecer a cidade e ver como era lá. Mas ele disse "nem pensar". Eu perguntei porque e ele disse que tinha medo do que o papai faria se soubesse que eu tinha saído da fazenda.

DE VOLTA AO PASSADO

10º
Sempre que termina a colheita aqui na fazenda eu fico com a sensação de ter ficado para trás. E essa sensação demora em passar.
A colheita do trigo aqui na fazenda terminou. O movimento de pessoas e caminhões acabou. As conversas depois do serviço já não acontecem, a comida diferente que era servida aos caminhoneiros já não eh mais feita, o café da manhã em meio a tantas pessoas deixou de ser servido e um pouco do mundo que eu fico sabendo através dos caminhoneiros terá que esperar a próxima colheita. Os caminhoneiros foram embora deixando para trás a poeira dos campos de trigo e uma terra esperando para ser preparada para um novo plantio, os amigos que fizeram e eu. Eh que sempre que eles partem, tenho a sensação que foi deixado para trás.
A volta da rotina para mim eh como me desligar do mundo para voltar a viver este mundo limitado por uma cerca de arame farpado. Esta fazenda onde trabalho, para muitos pode parecer imensa onde de um lado eh impossível ver o outro, para mim eh só um cercado. Mesmo que eu possa andar por muitos quilômetros dentro desta fazenda e isso possa ser considerado muito se comparado a pessoas que moram em cidades e nunca saem de lá ainda que não tenha cercas, eu estou cercado por arames farpado que determinam meu limite de ir e vir.
Sempre que termina a colheita aqui na fazenda eu fico com a sensação de ter ficado para trás. E essa sensação demora em passar. Trabalhador de fazenda não tem tempo de lamentar, esperar e talvez nem sonhar.
Mas tem seu lado bom. Quando a plantação começa a surgir na terra, você sente orgulho de ter participado daquela pequena vida que se inicia e fica mesmo orgulhoso de saber que aquela vida está ali graças a você. E que muitas pessoas dependem de que o trabalhador de fazenda faça o trabalho direito para que tenham o resultado de seu trabalho em sua mesa, ainda que nunca lembrem que um trabalhador de fazenda foi quem permitiu isso.